31/01/14 - A moda de tirar fotos de comida em restaurantes irrita chefs

E pode tornar a refeição menos agradável para quem come. Chega de comer com os olhos!

Qual é a primeira coisa que você faz depois que o garçom traz seu prato num restaurante? Se começa a comer imediatamente, está fora de moda. Na era do Instagram e do Facebook, a fome por “curtidas” é muito maior do que a vontade de apreciar a comida. O sabor é o que menos importa. Para os paparazzi gastronômicos que lotam as mesas, sacar o smartphone e fotografar o prato é tão instintivo quanto salivar. A comida só chega à boca depois, quando a imagem já foi escolhida, filtrada e compartilhada. Entre uma garfada e outra, os fotógrafos espiam o celular para ver comentários sobre a imagem e celebrar sua popularidade digital.

Mesmo quem não faz parte desse grupo de viciados em publicar fotos de comida certamente já os viu em ação ao vivo ou deparou com uma de suas fotos na internet. Eu já fui um deles. Não era uma fotógrafa assídua, mas vez ou outra não resistia à tentação de eternizar minhas refeições nas redes sociais. Também curtia fotos de comida que apareciam em perfis de amigos. Meu ponto fraco eram os doces. Mas há público para tudo. A quantidade de imagens de comida nas redes sociais é a maior prova disso. A hashtag “food”, no Instagram, tem mais de 80 milhões de imagens publicadas. No Facebook, alguns perfis se dedicam exclusivamente a compartilhar imagens de comida. A página Food Porn (algo como “comida pornô”), seguida por 1,5 milhão de pessoas, é uma das mais populares. O título é uma referência ao prazer de olhar para a comida. Quem curte a página é brindado com fotos maravilhosas de doces e salgados, muitas delas enviadas por outros usuários. Saborear o prato e desfrutar o momento com quem está à mesa não basta. É preciso compartilhar.

A moda se espalhou tanto que começou a irritar alguns chefs. Em vez de ficar contentes com a propaganda gratuita de seu trabalho, eles reclamam do mau comportamento dos clientes. No Brasil, os restaurantes não têm regras rígidas em relação às fotos, mas alguns chefs lamentam quando o cliente dá preferência à fotografia em vez da comida. “Alguns pratos, como risotos ou massas recheadas, devem ser comidos na hora”, diz Tassia Magalhães, chef do restaurante italiano Pomodori, em São Paulo. “Nesses casos, o tempo que o cliente leva para tirar a foto pode atrapalhar o paladar.” Alguns restaurantes fora do Brasil já proíbem seus clientes de fotografar os pratos ou restringem a prática. O Bouley, em Nova York, é um deles. Lá, os clientes que querem fotografar o prato são convidados a ir até a cozinha, “para ter uma luz melhor e para não atrapalhar os outros clientes”, diz Steven Hall, relações-públicas do restaurante. A preocupação faz sentido. Alguns fotógrafos incomodam outros clientes com flashes, e outros chegam até a subir na cadeira em busca do melhor ângulo.

O resultado dessa adoração às imagens de comida é contraditório: quanto mais valorizamos as fotografias, menos conseguimos apreciar os alimentos na vida real. Enquanto fotografamos e postamos, o prato esfria e a refeição fica em segundo plano. Um estudo feito pela Universidade Brigham Young concluiu que, quanto mais fotos de comida nós vemos, menor é nossa vontade de comer. “É como se nos sentíssemos saciados pela imagem”, diz Jeff Larson, um dos professores responsáveis pela pesquisa.

As distrações digitais também nos fazem perder a concentração, o que afeta o paladar. Uma pesquisa feita na Universidade de Minnesota, nos Estados Unidos, revelou que rituais simples como fazer uma refeição num lugar agradável ou observar o alimento por alguns segundos antes de comê-lo influenciam positivamente na percepção do paladar.  Num dos testes, um grupo de participantes foi orientado a desembrulhar rapidamente uma barra de chocolate e colocá-la imediatamente na boca. No outro grupo, a ordem era tirar o chocolate lentamente da embalagem e comê-lo quando tivesse vontade, calmamente. No final, os participantes do segundo grupo avaliaram o chocolate como mais saboroso do que os do primeiro. Quando nos alimentamos vidrados em nossos smartphones, é como se estivéssemos no primeiro grupo, comendo rapidamente e sem dar atenção à refeição.

O corpo também sofre as consequências da alimentação no piloto automático. Quando somos tragados pela tecnologia, não prestamos atenção nos sinais que nosso organismo nos dá. Acabamos comendo mais – ou menos – do que deveríamos. Isso contraria alguns dos hábitos mais antigos da história do ser humano. Desde que o hábito de sentar-se à mesa e comer três vezes por dia foi criado, pouco depois do surgimento da agricultura, as refeições são um momento de apreciar a comida com calma e atenção. Hoje, nos distraímos com nossos dispositivos digitais e saímos da mesa empanturrados ou com fome.  Será que involuímos?

Ensinar os filhos da era digital a comer e a redescobrir os hábitos que tínhamos desde o neolítico é a meta do psicólogo americano Pavel Somov, autor de vários livros sobre alimentação. O mais recente, Reinventing the meal (Reinventando a refeição), reúne técnicas para nos desconectarmos da tecnologia e nos reconectarmos à comida. “Quando comemos checando e-mails ou redes sociais, perdemos a oportunidade de desfrutar todo o prazer que uma refeição nos proporciona”, diz.

O primeiro passo ensinado por Somov para redescobrir o prazer de comer é um exercício para retomar a consciência do próprio corpo. A melhor maneira de começar um almoço ou jantar é prestar atenção nos pulmões. Uma respiração longa e profunda proporcionará o relaxamento do corpo e da mente, segundo o psicólogo. Voltar nossa atenção para o corpo nos ajuda a perceber quando a vontade de comer é apenas um desejo ou impulso  e quando ela é real. Além disso, quando inspiramos fundo, sentimos mais o cheiro da comida – o que instiga o paladar.

Quando o corpo estiver relaxado e a mente aquietada, Somov ensina que o ideal é beber um copo de água antes da refeição. Ele enche parte do estômago e, assim, faz com que comamos menos. Durante a refeição, para não desviar a atenção da comida e sucumbir ao celular, ele sugere que respondamos a um   questionário mental. Devemos nos perguntar se estamos aproveitando o momento, sentindo o gosto, o cheiro e a textura do que está em nossa boca. Se mesmo com todo esse ritual a refeição parecer menos importante do que o que acontece nas redes sociais, há outras técnicas para despertar o interesse na comida.

Tinha me cansado um pouco das fotos de comida quando deparei com as dicas de Somov. Parei de seguir páginas que publicavam imagens o dia inteiro. Mas, lendo o livro, percebi que tenho o péssimo hábito de comer muito rápido. Na maioria das vezes, só me lembro disso quando já terminei de comer e estou com o estômago pesado. Fazer os exercícios de respiração antes de atacar o prato me ajudou a ficar atenta e a comer mais devagar. As perguntas durante a refeição também surtiram efeito. Reparei mais no sabor e na textura de cada alimento que comia – o que não faço normalmente. O único passo que não achei tão eficiente foi o copo d’água antes da refeição. Ele não mudou a quantidade de comida que costumo comer, mas talvez funcione melhor para quem tem o hábito de comer demais.

Uma grande vantagem das dicas de Somov é que elas são discretas. Nada parecido com o transtorno causado pelos papparazi gastronômicos. Na primeira vez em que fiz os exercícios de respiração numa mesa cheia, tinha várias explicações prontas para o caso de alguém estranhar minha postura. Ninguém reparou. Com a prática, imagino que os exercícios se tornarão ainda mais difíceis de notar. Continuarei a seguir as dicas. Sempre que sentir vontade de sacar o smartphone para fotografar o prato, controlarei meus impulsos e respirarei fundo. Assim, além de me poupar de sorvetes derretidos ou risotos empapados, comerei mais devagar e aproveitarei mais minhas refeições. Curti isso.

Dicas para comer melhor (Foto: ÉPOCA)
QUEM CURTE Algumas das imagens de comida publicadas recentemente por usuários do aplicativo Instagram. O assunto é um dos mais populares na rede social, com mais de 80 milhões de fotos compartilhadas (Foto: Reprodução)